Nada Ortodoxa: uma série para pensar sobre female gaze, sensibilidades e alteridade

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Não dou muita bola para as recomendações da Netflix, nem sempre acertam comigo.

Mas quando dá certo… Bom, posso dizer que na primeira vez encontrei a série que foi objeto de pesquisa no meu TCC e, recentemente, a série que vou discutir com vocês.

Na última sexta à noite, estava terminando o último episódio de Madam CJ Walker (que é outra série para assistir – vale dizer), quando entre os créditos surge um trailer com uma menina tendo a sua cabeça raspada, e uma descrição mencionando judeus ortodoxos e Berlim.

Foi assim que Nada Ortodoxa me apareceu. Certeira como um soco no estômago.

Assisti aos quatro episódios de uma vez só e dormi às 3h da manhã. 

(Eu não fazia isso desde os 19 anos).

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Nada Ortodoxa fala de Esther,  uma jovem de 19 anos que faz parte da comunidade Satmar (judeus ultraortodoxos), em Williamsburg, Brooklyn, Nova Iorque – único lugar que conhece no mundo. Tudo o que sua comunidade espera é que se case e tenha filhos, de preferência, vários. 

A primeira parte foi arranjada quando tinha 17 anos, ok. Agora, a segunda é mais complicada. Farta da situação aprisionante em que vive, Esther consegue ajuda de sua ex-professora de piano – ressalto que ela fazia aulas em segredo – para se mudar para Berlim e fazer a sua própria vida. 

A comunidade hassídica citada foi fundada por sobreviventes do Holocausto. A memória é característica marcante entre os personagens.

Por que exatamente ela decide ir embora? A montagem intercala cenas do passado e presente. Assim, entendemos com mais clareza o que se deu em torno do terceiro episódio, sendo que ao todo são quatro.

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O enredo é baseado no livro de memórias de Deborah Feldman, também uma jovem que decidiu sair de sua comunidade hassídica (Satmar Hasidic)  em Nova Iorque e se mudar para Berlim. Entretanto, Deborah não é Esther. As duas compartilham um passado conservador em comum.

Para citar uma diferença entre as duas, digamos que Deborah faz mais o tipo escritora e, Esther, possui uma forte ligação com a música.

Em Nada Ortodoxa, para além da ruptura com uma cultura conservadora, assistimos a uma mulher em processo de encontrar a sua própria voz. Talvez até literalmente – ops, spoilers. 

A mensagem por trás de cada episódio garante à narrativa sensibilidades tangíveis até a quem não faz ideia do que é estar inserido em um ambiente conservador. Como diz Deborah Feldman no making of da série: ninguém entende a língua que está sendo falada (ídiche) ou os costumes representados, mas a essência do que está acontecendo é universalmente compreensível.

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Vemos muitos filmes e séries contando histórias de mulheres, mas nem sempre sendo contados por estas. O que me chama a atenção em Nada Ortodoxa é a sua equipe marcada por protagonismo feminino, como podemos observar ao longo do making of, também disponível na Netflix. 

Ali vemos em destaque as roteiristas (Anna Winger e Alexa Karolinski) e a diretora (Maria Shrager), além de outras pessoas da equipe, que nos contam sobre o processo criativo de Nada Ortodoxa.

Ouvir todas as impressões sobre a técnica empregada, através das subjetividades daquelas mulheres, me fez lembrar do conceito de female gaze. Enfim, pelo menos se precisamos dar um nome para narrativas que trazem olhares não hegemônicos de maneira atenciosa e complexa, distanciando-nos do que se denomina male gaze. Acredito que sim, devemos.

As escolhas ali esmiuçadas nos propiciaram sentir mais da Esther enquanto mulher e dona do olhar da série. A presença de tantas mulheres em posições de criadoras, inclusive a Deborah, endossa esse posicionamento.

O termo male gaze aparece no artigo “Visual Pleasure and Narrative Cinema”¹, de Laura Mulvey. A autora discute como ângulos de câmera e escolhas narrativas contribuem para um cinema feito e visto por homens.  O corpo da mulher é observado, geralmente de modo sexualizado ou como uma propriedade, colocando a “mulher como imagem, o homem como dono do olhar”, como escreve Mulvey. 

A ideia do female gaze consiste em ressignificar a maneira como filmes representam as mulheres, abordando questões diversas e atribuindo complexidade aos seus personagens e narrativas. É relacional, novo e em desenvolvimento.

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Ao longo de Nada Ortodoxa, observo o female gaze em entremeio aos diversos núcleos representados. No hassídico, vemos a posição das mulheres, suas relações entre dores e poderes. Com sensibilidade, expõe-se a vida de uma jovem como Esther, a quem é relegada a função de criar uma família e, também, a sua relação com as outras mulheres.

Achei muito peculiar a figura de uma mulher na série que agia como “coach” de assuntos matrimoniais. Antes do casamento de Esther, ela faz uma visita à casa da menina para explicá-la o que se espera dela no casamento. Durante a conversa, revela a jovem a existência de um “buraco” que teria no seu corpo e que seria muito importante na hora do ato sexual. Esther diz algo como “Não tenho esse buraco”.

A “coach” afirma que sim, ela possui esse buraco, e pede para a menina ir ao banheiro verificar. Esther fica chocada – como assim tenho um órgão que nem conhecia? E continua…

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Fiquei estarrecida ao assistir a essa cena. Ao mesmo tempo, sensibilizada com a maneira como a privação de conhecimento foi representada na série, ao privilegiar a perspectiva de Esther diante das expectativas que eram colocadas em suas costas.

Em Berlim, por outro lado, vemos um contexto de diversidade e modernidade. O que também é proposital. A escolha de dar destaque à arquitetura pós-guerra faz parte de uma tentativa de dar ênfase a ideia de construção de novos caminhos, como descobrimos no making of.  Como se estivesse dizendo adeus ao passado, não apenas histórico mas também pessoal. 

Vale ressaltar as diversidades em Berlim. Lá, Esther conhece um conservatório de música que reúne estudantes de diversas partes do mundo e etnias para se dedicarem aos seus instrumentos. Faz amizade com um grupo de jovens diferentes entre si e vive novas experiências.

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Esther está sempre em contato com a alteridade no processo de construção de suas identidades. Na comunidade hassídica, lida com o “outro” que interfere na sua liberdade. Em Berlin, confronta-se com os “outros” que vivem de um modo tão diferente do seu, mas que é tão interessante por nunca tê-lo conhecido.

Como a atriz Shira Haas – que interpreta Esther – diz no making of, a narrativa não está preocupada em dizer se Deus existe ou não, mas apresentar o direito de ter a sua voz. Rompe com o seu passado, a fim de dar novos olhares ao seu futuro.

Aí temos mais uma camada e mais uma sensibilidade. Como encontramos a nossa voz estando presos ao passado de outros, e como vivemos o futuro sem apagar a memória que nos ajuda a não cometer os mesmos erros?

Uma cena me impactou muito: Robert (jovem músico) explica a Esther que atrás de toda aquela água aconteceu uma conferência da Alemanha nazista a respeito do Holocausto. Ela responde “E vocês nadam nesse lago?”, mas decide nadar também. Deixa para trás, simbolicamente, o seu passado.

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A memória é fundamental para não cometermos as mesmas atrocidades do passado. Nestes momentos em que discursos totalitários rastejam pelas nossas televisões e mídias sociais, precisamos tomar cuidado. Importante nos desfazermos do jugo que carregamos, mas de forma alguma esquecer o que aconteceu. Nossas marcas são lembranças que nos previnem.

É, François Jost². As séries (americanas ou não) carregam sintomas da nossa época. Não digo que elas dão conta de discutir cada questão apresentada de maneira profunda, mas despertam em nós efeitos de sentidos sobre o que vemos, vivemos e fazemos. 

Em Nada Ortodoxa, apesar de ter uma visão positiva do todo, ainda senti falta de ritmo na transição de vida de uma mulher que nunca saiu de sua comunidade para se confrontar com o  “mundano”. No entanto, são apenas quatro episódios. Reconheço que não seria possível diminuir a velocidade em tão poucos capítulos. 

Ficam nas camadas os despertamentos e as reflexões. Relevantes, com certeza.

Falei demais. 

Clique aqui para ver trailer da série. Espero que você se corroa assim como eu quando assisti e consiga tirar um momentinho para assistir os episódios completos.

Tempo para assistir: Você vai virar a madrugada mesmo, não tem jeito.

¹ Tenho este artigo em português e em pdf, caso vocês se interessem. É só avisar nos comentários e mandar o seu email.
² Pesquisador francês que escreveu o livro  “As séries americanas são sintoma de nossa época”.

5 comentários em “Nada Ortodoxa: uma série para pensar sobre female gaze, sensibilidades e alteridade

  1. Aaaaaaa só 4 episódios?! Não vai dar, precisarei de uns 8, por favor!
    Garota, estarrecida estou eu por essa análise profunda, me deu uma vontade de conhecer mais o female gaze.
    Parabéns pelo texto!

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