Li, reli – e, olha, foi curiosíssimo

dom casmurro

Aos professores de Literatura que tive no Ensino Médio, dedico estas reflexões sobre como é bizarro reler um clássico depois de tanto tempo.

No último post, conversamos sobre uma autora que eu já chamei “de vestibular”, a Lygia Fagundes Telles, mas que agora ocupa a minha mente de um jeito que meu Deus. Estou obcecada.

Reli agora o Dom Casmurro (Machado de Assis), pela terceiríssima vez, como diria José Dias. Sim, querido(a) leitor(a), pressuponho que você já leu o livro também, ou pelo menos, teve que aprender fatos aleatórios sobre ele para gabaritar uma prova.

Quando aterrissei em Matacavalos nesta quarentena, meus olhos vasculhavam a casa à procura de estilos, formas e conteúdos.

Os superlativos, as interlocuções, tudo ficou muito mais evidente. Culpo o curso de escrita criativa.

Sobre os dramas revividos: e daí se Capitu traiu ou não? Gente, está na hora de a gente superar, está na hora do Bentinho superar, porque viver o resto da vida com uma nóia dessas na cabeça não faz bem para personagem nenhum, quem dirá para a gente que supostamente é real.

Deus me livre de escrever um panegírico ao livro. Estou falando das minhas experiências, a minha narrativa está em jogo. Aliás, já pararam para pensar como seria o livro narrado pela Capitu? Será que o nome seria “Olhos de Ressaca”, “Cigana Oblíqua e Dissimulada”? Acho que não.

Reler faz a gente pensar essas coisas; admirar o texto que a gente gosta mais um pouquinho, inventar e recriar o que incomoda. Lembrar as vontades de escrever e fazer alguém sentir a mesma coisa.

Não é à toa que quando terminei Dom Casmurro, comecei a ler A Poética do Espaço (Gastón Bachelard), pela primeiríssima vez. Foi um baque real demais para chamar de coincidência. Se você está me achando supersticiosa em excesso neste blog, por favor, convido você, leitor(a) racional e pé no chão, a ler o seguinte trecho:

“Quanto a nós, afeitos à leitura feliz, não lemos, não relemos senão o que nos agrada, com um pequeno orgulho de leitura mesclado de muito entusiasmo. Enquanto que o orgulho se revela habitualmente um sentimento maciço que pesa sobre todo o psiquismo, a pontinha de orgulho que nasce da adesão a uma imagem feliz permanece discreta, secreta. Está em nós, simples leitores, para nós, e só para nós. Ninguém sabe que lendo revivemos nossas tentações de ser poeta. Todo leitor, um pouco apaixonado pela leitura, alimenta e recalca, pela leitura, um desejo de ser escritor. Quando a página lida é bela demais, a modéstia recalca esse desejo. Mas o desejo renasce. De qualquer maneira, todo leitor que relê uma obra que ama sabe que as páginas amadas lhe dizem respeito” (BACHELARD, 1978, p.189)

Ali na Introdução já senti que tinha algo para mim. Afinal, a própria leitura foi a minha motivação para entrar no personagem de escritora de vez em quando.

Ao longo de A Poética do Espaço, o filósofo aborda como os espaços adquirem diferentes significados na literatura, sendo a casa um deles. Quando adentramos o universo de um livro, lemos também os seus espaços.

Com esses olhinhos, reli Dom Casmurro e fiquei com a seguinte curiosidade: Por que ele fez uma réplica da casa de Matacavalos no Engenho Novo? Bachelard está me ajudando a responder a pergunta.

“…há sentido em dizer que se “lê uma casa”, que se “lê um quarto”, já que o quarto e a casa são diagramas de psicologia que guiam os escritores e poetas na análise da intimidade” (BACHELARD, 1978, p.222).

Ao longo do capítulo, Bachelard conversa com a gente sobre as diversas significações – sério, ele conversa! – que a casa adquire, trazendo exemplos de obras literárias. Nos meus devaneios, quando Bentinho constrói a réplica da casa de Matacavalos no Engenho Novo está sonhando com o passado como um espaço de fuga às perturbações do seu presente.

Ele está preso, tentando controlar o que saiu do controle. As perspectivas são bem diferentes daquelas de antes do casamento, no trecho em que relata que uma fada invisível lhe confessa “Tu serás feliz, Bentinho; tu serás feliz”. Mais para tu serás consumido pelos ciúmes, pelas expectativas e pelas memórias com as quais constrói a narrativa duvidosa, tentando nos convencer com teimosia sutil de que está certo. No Engenho Novo, vive as irrealidades de suas memórias e mastiga inquietações.

Alguém tem sérios problemas com controle (e por aí vai).

Tempo de leitura: a trilha sonora da série Capitu. Que tal?

Tá com tempo pra ler mais? Tem outros exemplos de livros curiosíssimos que li recentemente neste blog, como Múltipla Escolha e Seminário dos Ratos. De série, recomendo Nada Ortodoxa, lançamento recentíssimo da Netflix.

Foi muito gentil ter a sua companhia até aqui. Espero que a gente se leia de novo logo logo :)

Notinha de rodapé: ¹Para quem ficou curioso com a reflexão sobre as casas em Dom Casmurro, recentemente encontrei uma tese que explora o tema através da simbologia. Também para os interessados em Gastón Bachelard, indico este artigo que explica A Poética do Espaço, com ilustrações de textos latino americanos.

2 comentários em “Li, reli – e, olha, foi curiosíssimo

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s