Das coisas guardadas: sobre trazer à memória aquilo que me dá esperança

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Tenho o costume de guardar boas memórias em locais de fácil acesso, mesmo que eu esqueça que elas estão lá. Encontrá-las é ter a sensação de por a mão no bolso e achar dinheiro por acaso, sabe? Pequenas surpresas podem gerar grandes sentimentos.

Sei que se se eu abrir a segunda gaveta do meu criado-mudo vou encontrar um cartão que o pessoal do meu último estágio fez antes de eu ir embora. Atrás da montagem engraçadíssima da minha pessoa cercada por tapiocas, vou encontrar vários recados de gratidão e desejos de sucesso. Haja coração!

Também tenho lembranças que deixo atrás do meu notebook. Se eu fechá-lo ou apenas me levantar para tomar água, vejo um balão vermelho em cima de uma pilha de post-its e embaixo de um globo que comprei em Óbidos.

Não me leve a mal. Viagens internacionais são incríveis e o globo está lá para me lembrar disso, mas o que me afeta mesmo é aquele balão vermelho. Vazio e largado como se estivesse em uma pintura do Salvador Dalí.

Quando olho para o balão, vejo perseverança. Acontece que o ganhei em uma consulta na psicóloga no ano passado, quando estava lutando contra a fobia e a ansiedade social.

Tinha medo de balões, esses de festa de criança. Imagine como eu amava as festas na infância. Descobri que a origem do medo estava na ansiedade. Depois de várias sessões de terapia, superei a fobia. A psicóloga, quando percebeu a minha conquista, perguntou se eu me sentia confiante a ponto de estourar um balão. Eu disse, sim, dando risada.

Na mesma hora, ela levantou e pegou um balão no seu armário e eu pensei “Não pode ser!”. Mas enfrentei o desafio e estourei, com uma pisada triunfal.

Só de escrever sobre esses momentos não consigo deixar de curvar meus lábios em um sorriso. Lembrar de coisas boas é assim.

“Quero trazer à memória aquilo que me dá esperança”, Jeremias já dizia isso há mais de mil anos. Manter uma coleção pessoal de boas lembranças nos ajuda a viver o aqui-agora com a convicção de que podemos viver momentos melhores e de que, olha, já vivemos muita coisa.

No meio do isolamento social, as memórias têm sido meu aconchego e uma pílula de força para enfrentar os dias. Recentemente, fiz o curso de Inteligência Emocional, da Escola Conquer, e na aula sobre autogestão fomos convidados a preencher um arsenal do autoconhecimento. Nele, precisávamos preencher as nossas conquistas.

Minha principal surpresa foi descobrir quanta coisa já conquistei. Quantos momentos formaram quem sou hoje. E não para por aí. A grande sacada do exercício é nos fazer perceber que, assim como realizamos aqueles feitos escolhidos, podemos fazer muito mais.

O sentimento de realização após conquistas também nos ensina a tomar melhores decisões, porque aprendemos sobre nossos princípios e valores. O que faz a diferença para você?

No livro “Liderança – A inteligência emocional na formação do líder de sucesso”, Daniel Goleman passa um exercício para ajudar líderes a tomarem melhores decisões.

“Pense em onde você estaria sentado lendo este artigo daqui a 15 anos e vivendo a sua vida ideal. Quais tipos de pessoas estariam à sua volta? Como seria o seu ambiente? O que estaria fazendo durante um dia ou uma semana típica? Não se preocupe com a viabilidade de criar essa vida. Pelo contrário, deixe a imagem se desenvolver e se coloque no quadro.

Tente um pouco de redação livre sobre essa visão de si mesmo, grave sua visão num gravador ou fale a respeito com um amigo de confiança. Muitas pessoas contam que, ao fazer esse exercício, experimentam uma liberação de energia e se sentem mais otimistas do que estavam momentos antes. Imaginar um futuro ideal pode ser um meio poderoso de se conectar com as possibilidades de mudança em nossas vidas” (p.89).

Coloquei a dica na prática antes de tomar a decisão de não assumir uma função de liderança na área de Comunicação. Ao visualizar o meu futuro-lugar seguro-ideal, percebi que passar por aquele cargo não fazia parte da realização dos meus objetivos nem da minha felicidade.

Satisfação, para mim, não se resume a cargos, status ou dinheiro, embora reconheça o proveito que poderia tirar de todas essas coisas. Fico feliz pela decisão inteligente e consciente que tomei.

E, no fundo, foi necessário entender qual é o meu propósito e o que desejo sentir ao alcancá-lo. Ao trazer à memória aquilo que me dá esperança, pude vislumbrar um passo a mais dado rumo ao autoconhecimento e à perseverança.

Acho importante ressaltar que isso não significa que foi uma fácil decisão, ou que a mera lembrança de algo bom tem o poder de transformar uma vida. Não quero te enganar com a ilusão da positividade, nem me colocar como exemplo. Tive muitos privilégios que me ajudaram a viver o que contei.

Existem coisas guardadas que precisam ser trazidas à luz com mais frequência. Seja a lembrança de uma viagem legal, um cartão feito com carinho ou a simples imagem de um futuro que você deseja conquistar.

Imagino que você tenha muitas coisas boas para lembrar por aí :)

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