As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino

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O comentário da vez vem atrasado – e isso não é um pedido de desculpas. Fiquei presa na sala de embarque, o voo atrasou e a internet do aeroporto não estava funcionando muito bem.

Fiz uns rabiscos em um caderno que sempre levo comigo para não perder as ideias. Infelizmente, também se perderam depois da segunda conexão, no despacho de bagagens. Mala extraviada.

Não posso usar essas justificativas, eu sei. Estou isolada em uma cidade visível, sem por o pé para fora de casa. Talvez até por isso a leitura do livro “Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino, tenha sido uma boa escolha. Consegui viajar um pouco.

ZAIRA
Zaira, por Karina Puente.

A obra nos coloca a ouvir a narrativa de Marco Polo, que conta para o imperador Kublai Khan sobre as maravilhas das cidades de seu império. Os diferentes destinos variam em grandeza, estilo e, sobretudo, em subjetividades.

Quando Polo fala de cada uma nos sentimos em um lugar diferente, mas, ao mesmo, tempo, muito parecido. O viajante não está concentrado em dados ou estatísticas. Conta histórias.

As narrativas são intercaladas por diálogos entro Polo e Khan, e parece que o imperador pensou o mesmo que eu:

“- Os outros embaixadores me advertem a respeito de carestias, concussões, conjuras; ou então me assinalam minas de turquesa novamente descobertas, preços vantajosos nas peles de marta, propostas de fornecimento de lâminas adamascadas. E você – o Grande Khan perguntou a Polo. – Retornou de países igualmente distantes e tudo o que tem a dizer são os pensamentos que ocorrem a quem toma a brisa noturna na porta de casa*. Para que serve, então, viajar tanto?

– É noite, estamos sentados nas escadarias do seu palácio, inspire um pouco de vento – respondeu Marco Polo. – Qualquer país que as minhas palavras evoquem será visto de um observatório como o seu, ainda que no lugar do palácio real exista uma aldeia de palafitas e a brisa traga um odor de estuário lamacento” (p.14) *grifo meu

Muito diferente de Pero Vaz de Caminha que estava mais concentrado em palmitos do que na brisa oceânica da costa nordestina.

DOROTEA
Dorotea, por Karina Puente.

Cidades Invisíveis é um clássico da literatura italiana. É dividido em 9 partes, em que aparecem os seguintes temas: as cidades e a memória; as cidades e o desejo; as cidades e os sinais; as cidades sutis (ou delgadas); as cidades e os nomes. Entre os capítulos, há diálogos entre Marco Polo e Kublai Khan.

O próprio autor o classificou como um livro “poliedro” durante uma conferência em 1983. Enquanto os diálogos são fixos, a contação de histórias sobre cada cidade se movimenta criando um construto de significações que nos levam a uma reflexão entre o vivível e o invisível, o peso e a leveza. Este artigo, publicado em Estudos Avançados, se debruça sobre a análise intertextual no interior das cidades, a partir da metodologia de construção da obra por Ítalo Calvino. Vale a pena conferir, principalmente, depois de ler o livro.

Para pensar sobre a obra além das letras, você também pode contemplar estes desenhos, feitos pela arquiteta Karina Puente. Ela representou cada cidade relatada por Marco Polo em ilustrações e você pode saber mais sobre a iniciativa aqui.

Tempo de leitura pós-pandemia: entre uma ou outra conexão em aeroportos lotados.

Quer saber mais sobre o que eu estou lendo? Dá uma olhada nos meus últimos textos sobre livros.

Múltipla Escolha | Seminário dos Ratos| Dom Casmurro

2 comentários em “As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino

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