Sobre o dia em que colei grau de pijama

É errado demais dizer que achei melhor assim? Sabe, confortável. Sem aquela parafernália toda de beca, chapéu, canudo, salto, roupa preta, social. Antissocial, não, pare. Não sou obrigada a levar rótulos só porque, bem, evitei a fadiga, a coisa toda de levantar, sorrir, andar, apertar a mão, andar, acenar, sorrir para a foto, andar, sentar. Pensando bem, talvez seja até mais cansativo para quem vê lá da plateia. Dezenas de formandos repetindo o mesmo trajeto, e você lá, esperando apenas uma dessas pessoas passar para sorrir e acenar.

Teria sido maravilhoso terminar o ciclo de 4 anos com o aperto de um botão, caso os sistemas da coordenação não fossem tão burocráticos, para não chamar de lerdos. Faz parte, não é culpa de ninguém. Em qualquer país no mundo em que opera a burocracia e em que há uma predileção pelo acúmulo vai ser assim. Não estou julgando.

 Mas queria pontuar que lá na Estônia você só precisa estar presente para transferência de imóvel, casamento e divórcio. Falta pouco. Quanta confusão a gente não evitaria se, por exemplo, em caso de separação, em um momento louco como o que vivemos, fosse possível romper vínculos também com o aperto de um botão?

Casmurra, não. Se a leitora (presumo) está achando essa conversa muito deprimente e misantropa, tem a completa liberdade de encerrar o contato, também clicando em um botão. Já que é assim que resolvemos aquilo que nos incomoda na contemporaneidade, não vou privá-la do seu direito. Coitada, eu. Não tenho o direito de segurá-la aqui. Talvez isso aconteça pelas minhas habilidades de persuasão textual, as quais podem te indicar que a partir do próximo parágrafo eu intencione falar sobre alguma coisa mais profunda que uma murmuração.

Gutural. Mais profunda que o mais grave dos sons – invisíveis aos olhos e emitidos em frequência de ondas sonoras, viajando a 343m/s, passíveis de ação e reação.

O coração também sente o que os olhos não veem. A saudade é a maior prova disso e nunca foram escritas tantas mensagens no WhatsApp com esse termo. Nunca se teclou tanto essa palavra enquanto vestimos pijamas, por trás de telas que escondem botões que nos levam a salas de aula, reuniões de trabalho e colações de grau.

Se até há poucos dias ainda não havia caído a ficha de que ao segurar um smartphone podemos carregar o mundo, agora ficou evidente. Dos dispositivos, vêm o acesso também aos amores e aos afetos que a nós significam o planeta todo e um pouco mais.

Na palma da mão. Entre as linhas da vida, do amor e do dinheiro que se contorcem para agarrar os celulares, a vida continua acontecendo, na sua perspectiva mais micro e capaz de conter o universo. E é triste concluir que da poesia das coisas pequenas emerge um mundo que, se algum dia soube, já não sabe para onde vai.

Dos pequenos espaços, continuamos a viajar a lugares imaginados. Por enquanto, é só – e de pijama.

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