Luta de classes (2018): um filme sobre a importância da educação no tratamento da diferença

luta de classes

O Festival Varillux Em Casa tem sido um dos meus confortos nessa quarentena que, em Curitiba, retorna ao alerta laranja. No site do festival, foram selecionados 50 filmes franceses que estão disponíveis para você assistir gratuitamente em casa. Entre eles, está “Luta de Classes”, uma boa pedida para um domingo à tarde em que você já não aguenta mais as séries originais da Netflix e derivados.

 Luta de Classes (2018):

Em “Luta de Classes”, Sofia (advogada) e Paul (baterista de banda de punk rock) se mudam com os filhos para uma casa suburbana. Matriculam o filho Corentin na escola pública local, porque desejam que ele tenha uma educação que o leve a se tornar uma pessoa autônoma e consciente. Afinal, os dois também vieram da escola pública e possuem convicções políticas muito fortes e humanitárias.

Mas parece que a própria escola pública está assumindo novos significados nos tempos do filho. Seus colegas de classe brancos começam a mudar para uma escola particular por algum motivo, o que leva Corentin a se tornar o diferente (privilegiado) no ambiente escolar. Sua vizinhança é composta majoritariamente por imigrantes, principalmente, de origem africana e de religião muçulmana.

Um filme sobre identidade e diferença

A partir daí, a narrativa se desenvolve no conflito dos pais, entre seus princípios liberais e a preocupação com o sentimento de exclusão do filho. O próprio Corentin não é categoricamente aquilo que se considera branco na França: sua mãe, Sofia, é descendente de argelinos. Mesmo assim, coloca-se em questão a diferença de privilégios entre a classe francesa (branca) e a classe imigrante.

Ao longo do filme, somos guiados em torno de movimentos narrativos que nos fazem pensar sobre a falta de diálogo entre os diferentes. A educação tem responsabilidade fundamental de formar pessoas com a capacidade de compreender o contexto de onde vem e como interagir com a diferença enquanto exercem a sua cidadania.

Uma cena fantástica está nos primeiros momentos do filme. A professora da turma de Corentin precisa perguntar aos estudantes se eles comem carne de porco, por se tratar de uma turma com diversos alunos muçulmanos. Ela mal consegue enunciar a frase, recorrendo àquilo que chamaríamos de “politicamente correto” (entre aspas mesmo), não apenas nessa parte do filme, inclusive.

É cômico, mas é trágico. Dá para perceber um momento social marcado por diálogos que não se concretizam e por polarizações cada vez mais evidentes.

 No filme, também assistimos à ressignificação da escola pública.

A cenografia da escola é outro ponto que merece destaque. O filme mostra a diferença de infraestrutura de colégios particulares, públicos em bairros mais favorecidos, e públicos em bairros menos favorecidos. Para além dessas questões mais palpáveis, está o preconceito.

Dias após o episódio da carne de porco, diversas famílias brancas matriculam os seus filhos em uma escola particular. A discriminação, pelo menos no início do filme, não é evidente propositalmente. Mas o tema circula nas entrelinhas até ser verbalizado mais à frente na narrativa.

As crianças não fazem distinções de cor como os adultos. Entre elas, não vemos discussões sobre origens ou aparências. Entretanto, podemos sentir as primeiras percepções sobre a diferença em Corentin em várias cenas do filme.

Uma das mais cômicas é aquela em que a família comparece a uma espécie de festa do bairro, em que vários colegas de classe do filho estão presentes. Lá, Corentin pula dentro de um aquário, alegando que era o seu batismo, apesar de estar em uma família de pais ateus.

luta de classes filme frances

Isso acontece por causa de uma conversa com dois colegas, um muçulmano e uma menina católica. Segundo os colegas, quem não acredita em Deus está fadado ao inferno. Cada um dá a explicação concernente à sua religião. Inclusive, a colega católica explica que ele pode resolver a situação acreditando em Deus e se batizando. Pronto, aquário + água. A solução mais fácil para evitar a condenação eterna.

São situações como essa que levam os pais a confrontarem os seus próprios valores. Percebem que o filho está sofrendo, cogitam trocar de escola, e lutam com os seus próprios preconceitos. A mensagem, por fim, é sobre a importância entre o diálogo entre comunidades.

A sociedade está se reconfigurando e, em vez de um lado querer falar mais alto que o outro, devemos estar dispostos a sentar, ouvir e conversar.

Vale a pena assistir até o final e conferir a reviravolta na relação dos pais e do menino com a escola pública. Aliás, são as cenas absurdas e cômicas que garantem ao filme o status de comédia.

Há momentos que provocam sorrisos e outros que provocam o riso, com aquele quê de filme francês que nos deixa sem reação. O ponto que torna o realismo um pouco mais fantástico, embora não remeta a elementos da fantasia.

Se você já assistiu a “A Última Loucura de Claire Darling” sabe do que estou falando. Caso não tenha visto, deixo também a recomendação desse filme sobre uma mulher idosa que jura de pé junto que morrerá naquele mesmo dia. Também está disponível no Festival Varillux Em Casa 😊

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