Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino

Se um viajante numa noite de inverno
Trechinho no capítulo 1

As paredes são claras, invadidas por estantes repletas de livros coloridos – organizados em ordem alfabética – com uma pretensão estética perceptível até para quem não tem o hábito de analisar esse tipo de coisa. É uma biblioteca. No centro, caminhamos entre mesas povoadas por leitores de todos os tipos, dos mais acadêmicos aos completamente descompromissados. Não tinha o que fazer, cheguei aqui e optei por um livro aleatório. Mentira. O leitor pode até pensar que a sua escolha foi randômica, mas a gente sabe que o livro gera uma atração irresistível do primeiro olhar à primeira página.

Assim, refugiamo-nos por algumas horas (quem sabe, até semanas) entre as suas páginas, percorrendo a narrativa às vezes como uma caminhada e, em outros momentos, como uma maratona. Foi nesse cenário que habitei durante os dias que compuseram a minha leitura de “Se um viajante numa noite de inverno”, de Ítalo Calvino.

A resenha começa sem pretender ser uma resenha, uma ode, ou uma crítica, mas um comentário. As vírgulas caracterizam a primeira frase e o resto segue curto e simples como gosto. “Se um viajante numa noite de inverno” foi uma indicação da minha professora no curso de Escrita Criativa e Outras Artes. Uma baita recomendação, mencionada uma série de vezes ao longo das aulas e, tendo a lido, compreendo o porquê.

No romance, o autor escreve em segunda pessoa sobre um Leitor que vai comprar “Se um viajante de uma noite de inverno” e descobre um outro livro dentro da obra. Na livraria, conhece também Ludmilla, a Leitora, a qual lê com amor desinteressado. A partir desse encontro, vemos o desenlace de um enredo composto de uma série de inícios de romance, caos, e um final que busca a ordem para conter o fim do mundo.

Estrambótico. Começar a viajar numa noite de inverno pode ser um pouco lento, mas à medida que vamos chegando ao terceiro capítulo a leitura fica elétrica. Cada início de livro se entrecruza (ou se entrelaça?) à narrativa das personagens até a ordem do desfecho.

Para Letícia, foi estarrecedor (no bom sentido). Quando terminei, estava irrequieta, caminhava agitada pela casa, olhei para minha mãe e disse que havia acabado de ler o melhor livro da minha vida. Que bom, foi a resposta.

Já é o terceiro livro de Ítalo Calvino que leio este ano, e tenho mais alguns na to-do list para cumprir até dezembro. Há alguns meses, havia falado sobre “Cidades Invisíveis” aqui, e espero voltar antes do apocalipse para escrever ao menos uma nota sobre “Sob o Sol-jaguar”.

“…ler significa despojar-se de toda intenção e todo preconceito para estar pronta a captar uma voz que se faz ouvir quando menos se espera, uma voz que vem não se sabe de onde, de algum lugar além do livro, além do autor, além das convenções da escrita: do não-dito, daquilo que o mundo ainda não disse sobre si e ainda não tem as palavras para dizer”

Se um viajante numa noite de inverno – Capítulo 10.

Tempo de leitura: embaçado como a nuvem de fumaça que dissimula um pedaço do primeiro parágrafo.

Um comentário em “Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino

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